Semaglutida oral pode reduzir o risco de insuficiência cardíaca em pessoas com diabetes tipo 2, aponta estudo

Novos avanços no tratamento do diabetes tipo 2 mostram como a semaglutida oral pode promover benefícios cardíacos aos pacientes.

Paola Doutora

03/02/2026

Nova pesquisa mostra redução significativa de eventos relacionados à insuficiência cardíaca, especialmente em um tipo da doença que ainda tem poucas opções de tratamento

Por muito tempo, tratar o diabetes tipo 2 significou focar quase exclusivamente no controle da glicemia. Mas a ciência vem mostrando que o impacto da doença vai muito além do açúcar no sangue — e que algumas terapias podem proteger também o coração, os rins e o metabolismo como um todo.

Um novo estudo publicado em fevereiro no JAMA Internal Medicine traz evidências importantes nesse sentido: a semaglutida oral pode reduzir de forma significativa o risco de eventos relacionados à insuficiência cardíaca em pessoas com diabetes tipo 2, especialmente entre aquelas que já convivem com a doença cardíaca.

Diabetes tipo 2 e insuficiência cardíaca: uma relação próxima e perigosa

Diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares frequentemente caminham juntas. Pessoas com diabetes têm um risco elevado de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo da vida — e, quando essas condições coexistem, o prognóstico tende a ser pior.

A insuficiência cardíaca costuma ser dividida em dois grandes subtipos:

  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (HFrEF), quando o coração perde força para bombear o sangue. 
  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (HFpEF), quando o coração até bombeia bem, mas está rígido e não consegue se encher adequadamente. 

A HFpEF é especialmente desafiadora: é comum em pessoas com obesidade, diabetes, hipertensão e doença renal, e historicamente tem poucas opções de tratamento eficazes.

O que o novo estudo investigou

O estudo analisou dados do ensaio clínico SOUL, um grande estudo randomizado que avaliou os efeitos da semaglutida oral em adultos com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular.

Ao todo, participaram 9.650 pessoas, com idade média de 66 anos. Cerca de 29% eram mulheres e aproximadamente um quarto dos participantes já tinha diagnóstico prévio de insuficiência cardíaca no início do estudo.

Os participantes foram divididos aleatoriamente para receber semaglutida oral diariamente ou placebo, e acompanhados por cerca de quatro anos.

O objetivo principal do ensaio SOUL já havia mostrado redução de eventos cardiovasculares maiores, como infarto, AVC e morte cardiovascular. Esta nova análise focou especificamente nos desfechos relacionados à insuficiência cardíaca.

Resultados: menos internações e mortes por insuficiência cardíaca

Entre as pessoas que já tinham insuficiência cardíaca no início do estudo, o uso da semaglutida oral esteve associado a uma redução de 22% no risco de eventos graves, como hospitalização ou morte relacionada à insuficiência cardíaca.

Mas o dado mais relevante apareceu quando os pesquisadores separaram os participantes por subtipo da doença:

  • Pessoas com HFpEF tiveram uma redução de 41% no risco de eventos relacionados à insuficiência cardíaca. 
  • Já entre aquelas com HFrEF, não houve benefício estatisticamente significativo. 

Ou seja: o maior efeito foi observado justamente no subtipo mais difícil de tratar.

Outro ponto importante é que não houve sinal de risco adicional. O número de eventos adversos graves foi semelhante entre os grupos que receberam semaglutida oral e placebo, reforçando o perfil de segurança do medicamento.

Por que a semaglutida pode ajudar o coração?

Medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, como a semaglutida, foram desenvolvidos para o tratamento do diabetes e da obesidade. Mas, nos últimos anos, estudos vêm mostrando que seus efeitos vão além da glicemia e do peso corporal.

Esses medicamentos ajudam a melhorar:

  • O controle metabólico
  • A resistência à insulina
  • O peso corporal
  • Processos inflamatórios
  • Fatores de risco cardiovascular 

No caso da HFpEF, que costuma ser impulsionada por obesidade, diabetes, inflamação crônica e envelhecimento, tratar essas condições associadas pode aliviar a sobrecarga sobre o coração.

Não por acaso, outros estudos recentes, como o SUMMIT (com tirzepatida) e o STEP-HFpEF DM (com semaglutida injetável), já haviam mostrado melhora de sintomas, capacidade física e redução de eventos em pessoas com HFpEF.

Este novo trabalho é o primeiro grande ensaio clínico randomizado a demonstrar esse tipo de benefício especificamente com a versão oral da semaglutida.

O que isso muda na prática clínica

Os resultados não significam que a semaglutida oral seja uma solução universal ou que substitua tratamentos já estabelecidos. Mas eles ampliam o leque de possibilidades terapêuticas, especialmente para um grupo de pacientes que historicamente teve poucas opções eficazes.

Para pessoas com diabetes tipo 2, obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, a semaglutida oral surge como uma alternativa promissora — inclusive para quem tem dificuldade ou resistência ao uso de medicamentos injetáveis.

Mais do que isso, o estudo reforça uma mudança de paradigma: cuidar do metabolismo é, cada vez mais, uma forma de cuidar do coração.

Acompanhar ciência também é uma forma de prevenção

Avanços como esse mostram por que é tão importante acompanhar a ciência com profundidade, contexto e senso crítico — sem promessas milagrosas, mas também sem ignorar descobertas relevantes.

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FAQ

O que é HFpEF e por que é tão difícil de tratar?

HFpEF significa insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Nessa condição, o coração não relaxa bem e não se enche corretamente mesmo mantendo força de bombeamento, sendo comum em pessoas com diabetes, obesidade e pressão alta. É de difícil tratamento porque há poucas opções realmente eficazes comprovadas em estudos.

A semaglutida oral pode substituir outros remédios para diabetes ou coração?

Não necessariamente. O tratamento individual deve ser definido pelo médico, que pode associar diferentes medicamentos de acordo com seu histórico e necessidades.

O remédio oral é tão seguro quanto o injetável?

Segundo os estudos recentes, o perfil de segurança da versão oral é semelhante ao injetável, sem aumento do risco de efeitos adversos graves.

Todo paciente com diabetes e insuficiência cardíaca pode contar com essa alternativa?

A indicação depende de avaliação individualizada. Nem todos os pacientes podem ou precisam usar esse medicamento. É importante conversar com seu cardiologista e endocrinologista para entender a melhor opção para o seu caso.

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A semaglutida oral tem demonstrado benefícios significativos na redução de eventos cardiovasculares em pacientes com diabetes tipo 2, especialmente naqueles com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (HFpEF). Estudos recentes, como o SOUL, evidenciam uma redução de 22% no risco de eventos graves relacionados à insuficiência cardíaca em pacientes que já apresentavam a condição no início do estudo. Notavelmente, entre os pacientes com HFpEF, a redução foi de 41%, enquanto nos casos de fração de ejeção reduzida (HFrEF), o benefício não foi estatisticamente significativo. ([jamanetwork.com](https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2844096?utm_source=openai))

Além disso, uma meta-análise revelou que a semaglutida oral está associada a uma redução significativa nos principais eventos cardiovasculares adversos (MACE), incluindo infarto do miocárdio não fatal e necessidade de revascularização, com efeitos consistentes entre as formulações oral e subcutânea. ([pubmed.ncbi.nlm.nih.gov](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41472878/?utm_source=openai))

Esses achados reforçam o potencial da semaglutida oral como uma opção terapêutica eficaz e segura para pacientes com diabetes tipo 2 e insuficiência cardíaca, especialmente no subtipo HFpEF, que historicamente possui opções de tratamento limitadas.

**Referências**

- ORAL SEMAGLUTIDE AND HEART FAILURE OUTCOMES IN PERSONS WITH TYPE 2 DIABETES: A SECONDARY ANALYSIS OF THE SOUL RANDOMIZED CLINICAL TRIAL. JAMA Internal Medicine. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2844096. Acesso em: 3 fev. 2026.

- EFFECTS OF SUBCUTANEOUS OR ORAL SEMAGLUTIDE ON CARDIOVASCULAR OUTCOMES IN PATIENTS WITH TYPE 2 DIABETES MELLITUS: A META-ANALYSIS OF RANDOMIZED CONTROLLED TRIALS. PubMed. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41472878/. Acesso em: 3 fev. 2026.

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