Nova pesquisa mostra redução significativa de eventos relacionados à insuficiência cardíaca, especialmente em um tipo da doença que ainda tem poucas opções de tratamento
Por muito tempo, tratar o diabetes tipo 2 significou focar quase exclusivamente no controle da glicemia. Mas a ciência vem mostrando que o impacto da doença vai muito além do açúcar no sangue — e que algumas terapias podem proteger também o coração, os rins e o metabolismo como um todo.
Um novo estudo publicado em fevereiro no JAMA Internal Medicine traz evidências importantes nesse sentido: a semaglutida oral pode reduzir de forma significativa o risco de eventos relacionados à insuficiência cardíaca em pessoas com diabetes tipo 2, especialmente entre aquelas que já convivem com a doença cardíaca.
Diabetes tipo 2 e insuficiência cardíaca: uma relação próxima e perigosa
Diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares frequentemente caminham juntas. Pessoas com diabetes têm um risco elevado de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo da vida — e, quando essas condições coexistem, o prognóstico tende a ser pior.
A insuficiência cardíaca costuma ser dividida em dois grandes subtipos:
- Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (HFrEF), quando o coração perde força para bombear o sangue.
- Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (HFpEF), quando o coração até bombeia bem, mas está rígido e não consegue se encher adequadamente.
A HFpEF é especialmente desafiadora: é comum em pessoas com obesidade, diabetes, hipertensão e doença renal, e historicamente tem poucas opções de tratamento eficazes.
O que o novo estudo investigou
O estudo analisou dados do ensaio clínico SOUL, um grande estudo randomizado que avaliou os efeitos da semaglutida oral em adultos com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular.
Ao todo, participaram 9.650 pessoas, com idade média de 66 anos. Cerca de 29% eram mulheres e aproximadamente um quarto dos participantes já tinha diagnóstico prévio de insuficiência cardíaca no início do estudo.
Os participantes foram divididos aleatoriamente para receber semaglutida oral diariamente ou placebo, e acompanhados por cerca de quatro anos.
O objetivo principal do ensaio SOUL já havia mostrado redução de eventos cardiovasculares maiores, como infarto, AVC e morte cardiovascular. Esta nova análise focou especificamente nos desfechos relacionados à insuficiência cardíaca.
Resultados: menos internações e mortes por insuficiência cardíaca
Entre as pessoas que já tinham insuficiência cardíaca no início do estudo, o uso da semaglutida oral esteve associado a uma redução de 22% no risco de eventos graves, como hospitalização ou morte relacionada à insuficiência cardíaca.
Mas o dado mais relevante apareceu quando os pesquisadores separaram os participantes por subtipo da doença:
- Pessoas com HFpEF tiveram uma redução de 41% no risco de eventos relacionados à insuficiência cardíaca.
- Já entre aquelas com HFrEF, não houve benefício estatisticamente significativo.
Ou seja: o maior efeito foi observado justamente no subtipo mais difícil de tratar.
Outro ponto importante é que não houve sinal de risco adicional. O número de eventos adversos graves foi semelhante entre os grupos que receberam semaglutida oral e placebo, reforçando o perfil de segurança do medicamento.
Por que a semaglutida pode ajudar o coração?
Medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, como a semaglutida, foram desenvolvidos para o tratamento do diabetes e da obesidade. Mas, nos últimos anos, estudos vêm mostrando que seus efeitos vão além da glicemia e do peso corporal.
Esses medicamentos ajudam a melhorar:
- O controle metabólico
- A resistência à insulina
- O peso corporal
- Processos inflamatórios
- Fatores de risco cardiovascular
No caso da HFpEF, que costuma ser impulsionada por obesidade, diabetes, inflamação crônica e envelhecimento, tratar essas condições associadas pode aliviar a sobrecarga sobre o coração.
Não por acaso, outros estudos recentes, como o SUMMIT (com tirzepatida) e o STEP-HFpEF DM (com semaglutida injetável), já haviam mostrado melhora de sintomas, capacidade física e redução de eventos em pessoas com HFpEF.
Este novo trabalho é o primeiro grande ensaio clínico randomizado a demonstrar esse tipo de benefício especificamente com a versão oral da semaglutida.
O que isso muda na prática clínica
Os resultados não significam que a semaglutida oral seja uma solução universal ou que substitua tratamentos já estabelecidos. Mas eles ampliam o leque de possibilidades terapêuticas, especialmente para um grupo de pacientes que historicamente teve poucas opções eficazes.
Para pessoas com diabetes tipo 2, obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, a semaglutida oral surge como uma alternativa promissora — inclusive para quem tem dificuldade ou resistência ao uso de medicamentos injetáveis.
Mais do que isso, o estudo reforça uma mudança de paradigma: cuidar do metabolismo é, cada vez mais, uma forma de cuidar do coração.
Acompanhar ciência também é uma forma de prevenção
Avanços como esse mostram por que é tão importante acompanhar a ciência com profundidade, contexto e senso crítico — sem promessas milagrosas, mas também sem ignorar descobertas relevantes.
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FAQ
O que é HFpEF e por que é tão difícil de tratar?
HFpEF significa insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Nessa condição, o coração não relaxa bem e não se enche corretamente mesmo mantendo força de bombeamento, sendo comum em pessoas com diabetes, obesidade e pressão alta. É de difícil tratamento porque há poucas opções realmente eficazes comprovadas em estudos.
A semaglutida oral pode substituir outros remédios para diabetes ou coração?
Não necessariamente. O tratamento individual deve ser definido pelo médico, que pode associar diferentes medicamentos de acordo com seu histórico e necessidades.
O remédio oral é tão seguro quanto o injetável?
Segundo os estudos recentes, o perfil de segurança da versão oral é semelhante ao injetável, sem aumento do risco de efeitos adversos graves.
Todo paciente com diabetes e insuficiência cardíaca pode contar com essa alternativa?
A indicação depende de avaliação individualizada. Nem todos os pacientes podem ou precisam usar esse medicamento. É importante conversar com seu cardiologista e endocrinologista para entender a melhor opção para o seu caso.







