Obesidade e emagrecimento: por que é tão difícil manter a mudança de hábitos?

Entenda por que tantas pessoas desistem no meio do processo e o que realmente sustenta um estilo de vida saudável a longo prazo

Paola Bem-estar

11/02/2026

Entenda por que tantas pessoas desistem no meio do processo e o que realmente sustenta um estilo de vida saudável a longo prazo

A obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial. Isso significa que não existe solução rápida ou fórmula mágica — existe controle, acompanhamento e constância. Ainda assim, quando falamos em emagrecimento e mudança de hábitos, a realidade é clara: muitas pessoas começam motivadas, mas abandonam o processo poucos meses depois.

Estudos mostram que cerca de 50% dos indivíduos que iniciam um programa de treinamento físico desistem entre três e seis meses. Quando observamos intervenções voltadas para perda de peso e tratamento da obesidade, os índices de evasão também são altos. Isso não acontece por falta de informação. Vivemos na era do excesso de conteúdo sobre dieta, exercício e saúde metabólica. O problema, na maioria das vezes, está na dificuldade de sustentar o comportamento ao longo do tempo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a obesidade já é considerada uma pandemia global. Milhões de adultos, adolescentes e crianças convivem com excesso de peso, e as projeções continuam crescendo. No Brasil, os dados seguem a mesma tendência. A obesidade está associada a inflamação crônica, alterações hormonais, resistência à insulina, doenças cardiovasculares e redução da expectativa de vida.

Dizer “estou acima do peso, mas sou saudável” pode ser um risco silencioso. Muitas complicações se desenvolvem de forma progressiva e assintomática. Por isso, esperar adoecer para mudar o estilo de vida não deveria ser a estratégia.

Mas afinal, por que tantas pessoas desistem?

1. Expectativas irreais sobre o emagrecimento

É comum iniciar o processo com metas agressivas: treinar todos os dias, cortar diversos alimentos de uma vez, mudar completamente a rotina. A empolgação inicial é alta, mas não é sustentável. O corpo responde rapidamente nas primeiras semanas, principalmente em dietas muito restritivas, mas depois a perda de peso desacelera — e isso gera frustração.

Quando a expectativa é imediatista, qualquer oscilação na balança parece fracasso. E a frustração é um dos maiores gatilhos para o abandono.

2. Foco no macro e negligência do micro

Muitas pessoas tentam mudar tudo ao mesmo tempo, mas ignoram pequenos comportamentos que sabotam o processo.

O “macro” é o planejamento perfeito no papel.
O “micro” são os hábitos diários repetidos sem consciência.

Alguns exemplos de microcomportamentos que influenciam mais do que se imagina:

  • Comer no piloto automático.

  • Beliscar sem perceber.

  • Dormir mal com frequência.

  • Pular refeições e exagerar depois.

  • Usar a alimentação como resposta emocional.

Quando não trazemos esses padrões para a consciência, o ciclo de culpa e compensação se instala. A pessoa sai da rotina por um dia e conclui que “já perdeu tudo”, abandonando completamente o processo.

3. Falta de entendimento sobre o próprio comportamento

Existe um conceito importante na mudança de estilo de vida: a complacência. Ele acontece quando o paciente apenas executa o que foi prescrito, mas não entende o porquê. Repete a dieta, replica o treino, mas não desenvolve autonomia.

Sem compreensão, não há consistência. E sem consistência, não há resultado sustentável.

Mudança de hábitos exige reflexão:

  • Quanto tempo levou para chegar ao peso atual?

  • Quais fatores emocionais ou comportamentais estão envolvidos?

  • Quais situações são gatilhos?

  • O que é realmente viável manter na rotina atual?

Responder a essas perguntas aumenta a adesão ao tratamento e reduz a chance de desistência.

4. Motivação instável

A motivação não é fixa. Ela oscila. O que te impulsiona hoje pode não ser suficiente amanhã. Por isso, depender apenas de “estar motivado” é arriscado.

A motivação extrínseca — estética, aprovação externa, comparação — costuma perder força com o tempo. Já a motivação intrínseca, ligada à saúde, disposição, autonomia e qualidade de vida, tende a sustentar melhor a mudança.

Emagrecimento saudável não é sobre perfeição. É sobre constância possível.

É entender que recaídas acontecem. Que semanas desorganizadas fazem parte. Que o sábado e o domingo também contam — porque seu metabolismo não pausa no fim de semana. E que ajustar a rota é diferente de desistir.

Então, como aumentar as chances de manter a mudança?

Algumas estratégias práticas ajudam:

  • Estabeleça metas realistas e progressivas.

  • Foque em constância, não em intensidade extrema.

  • Trabalhe um hábito por vez.

  • Busque acompanhamento profissional.

  • Crie um ambiente que favoreça boas escolhas.

  • Pare de transformar um deslize em abandono total.

A dificuldade excessiva é um convite à desmotivação. Facilitar o processo é uma estratégia inteligente.

A obesidade não é resultado de um único fator, e o emagrecimento sustentável também não depende de uma única ação. Ele exige estrutura, clareza e acompanhamento adequado.

Se você sente que começa motivado e desiste no meio do caminho, talvez o problema não seja falta de força de vontade — mas falta de estratégia.

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Perguntas frequentes

Por que mudar hábitos é mais difícil do que começar uma dieta?

Hábitos envolvem rotina, ambiente e fatores emocionais. Já dietas rápidas focam em resultado imediato, mas não fortalecem comportamentos a longo prazo, tornando o recomeço frequente.

Como lidar com recaídas sem se sentir culpada?

Recaídas são normais. O importante é enxergá-las como oportunidades de aprendizado, ajustar o plano e retomar o processo com acolhimento, sem autocrítica excessiva.

Quais profissionais podem ajudar?

Nutricionistas, educadores físicos e psicólogos especializados em comportamento alimentar são aliados importantes para criar um plano individualizado e sustentável.

Demora quanto tempo para um hábito se firmar?

Não existe um prazo fixo — o tempo varia de pessoa para pessoa. Estudos indicam que cerca de 60 dias de repetição consciente já ajudam na incorporação de novos hábitos, mas o mais importante é a constância.

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Ministério da Saúde. “Obesidade: uma pandemia contínua”. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/obesidade-uma-pandemia-continua-29-5-dia-mundial-da-saude-digestiva/ 

WHO. World Obesity Day 2022 – Accelerating action to stop obesity. Disponível em: https://www.who.int/news/item/04-03-2022-world-obesity-day-2022-accelerating-action-to-stop-obesity 

ABESO. Mapa da obesidade. Disponível em: https://abeso.org.br/obesidade-e-sindrome-metabolica/mapa-da-obesidade/

Monnier L, Schlienger J, Colette C. et al. The obesity treatment dilemma: Why dieting is both the answer and the problem? A mechanistic overview. Diabetes & Metabolism. 2020.

 

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