EUA mudam guia alimentar e reforçam: comida de verdade é essencial para saúde e bem-estar
As diretrizes alimentares dos Estados Unidos passaram por uma das maiores mudanças das últimas décadas. O governo norte-americano divulgou uma nova pirâmide alimentar — agora invertida — que substitui o modelo MyPlate, utilizado desde 2011. A proposta, liderada pelo secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., durante o governo Donald Trump, faz parte do programa Make America Healthy Again (MAHA) e promete reposicionar o debate sobre alimentação, saúde e políticas públicas.
Mas o que exatamente muda com essa nova pirâmide? Ela é realmente mais saudável? E quais são os riscos apontados por especialistas? Neste artigo, o Quilores explica os principais pontos da nova diretriz, contextualiza o debate científico e compara o modelo norte-americano com o Guia Alimentar para a População Brasileira.
O que é a nova diretriz alimentar dos EUA
O principal destaque das novas diretrizes é o retorno do formato de pirâmide alimentar, agora apresentada de forma invertida — com a ponta voltada para baixo. Visualmente, o topo da pirâmide (a parte mais larga) passa a representar os alimentos que devem ter maior presença na alimentação cotidiana.
Na nova versão, os grupos alimentares foram reduzidos e reorganizados em três grandes categorias:
- Proteínas, laticínios e gorduras saudáveis
- Vegetais e frutas
- Grãos integrais
Os doces e alimentos ultraprocessados foram removidos do infográfico principal, reforçando o discurso de priorização da chamada “comida de verdade”.
Ao contrário da pirâmide tradicional de 1992 — que colocava os grãos como base da alimentação —, a nova diretriz posiciona proteínas e gorduras saudáveis no topo, enquanto os grãos integrais passam a ocupar a menor porção visual do gráfico.

Fim do MyPlate: por que o modelo mudou
Desde 2011, os Estados Unidos adotavam o MyPlate, um gráfico circular que simulava um prato dividido em porções de grupos alimentares. A ideia era facilitar o entendimento da população sobre equilíbrio alimentar.
A nova pirâmide marca uma ruptura simbólica e política com esse modelo. Segundo o governo, o MyPlate não conseguiu conter o avanço da obesidade, do diabetes tipo 2 e de outras doenças crônicas nos Estados Unidos.
Para Robert F. Kennedy Jr., diretrizes anteriores teriam desencorajado, de forma equivocada, o consumo de proteínas e gorduras saudáveis:
“Proteínas e gorduras saudáveis são essenciais e foram erroneamente desencorajadas em diretrizes alimentares anteriores.”
O que a nova diretriz incentiva
De forma geral, a nova pirâmide alimentar dos EUA defende:
- Maior consumo de proteínas, incluindo carnes, ovos, queijos e laticínios integrais
- Prioridade para alimentos naturais ou minimamente processados
- Redução do consumo de açúcares adicionados e ultraprocessados
- Menor ingestão de carboidratos complexos, especialmente grãos
As recomendações sobre gorduras também foram ajustadas. A meta de limitar a ingestão de gordura saturada a até 10% das calorias diárias foi mantida, mas o próprio documento reconhece que ainda são necessárias mais pesquisas para embasar essa orientação.
Além disso, as novas diretrizes retiram recomendações específicas sobre consumo diário de álcool, passando a sugerir apenas que se beba menos.
Impacto direto em escolas e programas sociais
As diretrizes alimentares federais dos Estados Unidos não são apenas orientações gerais: elas influenciam diretamente políticas públicas. Estima-se que quase 30 milhões de crianças sejam impactadas por essas recomendações por meio de:
- Merendas escolares
- Programas de assistência alimentar
- Vale-refeição e subsídios federais
Com a nova pirâmide, alimentos elegíveis para financiamento público podem mudar, afetando cardápios escolares e contratos de fornecimento em todo o país.
O que dizem os especialistas: benefícios e riscos
Apesar do discurso oficial, a nova pirâmide alimentar está longe de ser consenso entre especialistas em nutrição.
Aumento do consumo de proteínas animais
Para David Seres, diretor de nutrição médica da Universidade de Columbia, o incentivo ao consumo elevado de proteínas — especialmente de origem animal — pode trazer efeitos colaterais importantes:
- Aumento da ingestão calórica
- Maior risco de obesidade
- Sobrecarga renal em pessoas predispostas
- Redução do consumo de fibras
A diminuição dos grãos integrais, segundo ele, pode comprometer a ingestão de nutrientes essenciais e a saúde intestinal.
Gorduras saturadas em destaque
Christopher Gardner, especialista em nutrição da Universidade Stanford, foi ainda mais crítico:
“Estou muito decepcionado com a nova pirâmide alimentar que coloca a carne vermelha e as fontes de gordura saturada no topo, como se isso fosse algo prioritário. Isso contradiz décadas e décadas de evidências e pesquisas.”
Bethany Doerfler, nutricionista da Northwestern Medicine, reconhece que alguns laticínios são menos prejudiciais do que se pensava, mas alerta para o impacto calórico:
- Laticínios integrais podem adicionar 200 calorias ou mais por dia
- Esse excesso aumenta o risco de ganho de peso e obesidade
Comparação com o Guia Alimentar para a População Brasileira
Apesar das controvérsias, a nova diretriz norte-americana se aproxima do Guia Alimentar para a População Brasileira em alguns pontos fundamentais.
O guia brasileiro, publicado originalmente em 2006 e atualizado ao longo dos anos, prioriza:
- Alimentos in natura e minimamente processados
- Preparações caseiras
- Uso moderado de ingredientes culinários
- Evitar alimentos ultraprocessados
A principal diferença está no enfoque:
- Brasil: base da alimentação em alimentos de origem vegetal, como arroz, feijão, legumes, verduras e frutas
- Estados Unidos: centralidade das proteínas, incluindo carnes e laticínios
Enquanto o guia brasileiro adota uma visão mais cultural, social e ambiental da alimentação, a nova pirâmide dos EUA enfatiza escolhas individuais e macronutrientes.
Alimentação, política e saúde pública
A nova pirâmide alimentar invertida não é apenas uma atualização técnica. Ela reflete uma visão política sobre saúde, ciência e responsabilidade individual.
Ao mesmo tempo em que valoriza alimentos menos processados — um ponto positivo —, o modelo levanta preocupações ao minimizar o papel dos carboidratos complexos e ao reforçar o consumo de proteínas e gorduras saturadas.
Em um país com altos índices de obesidade e doenças crônicas, mudanças nas diretrizes alimentares precisam ser analisadas com cautela, base científica sólida e foco em saúde pública — não apenas em tendências ou discursos ideológicos.
Conclusão
A nova diretriz alimentar dos Estados Unidos marca uma guinada importante nas políticas de nutrição do país. Embora traga avanços ao combater ultraprocessados e valorizar alimentos naturais, ela também reacende debates antigos sobre o consumo excessivo de proteínas animais, gorduras saturadas e a redução de fibras.
Mais do que nunca, fica claro que não existe solução simples para problemas complexos como alimentação e saúde. Diretrizes eficazes precisam considerar ciência, cultura, acesso a alimentos e impacto social — lições que o Brasil já vem incorporando há quase duas décadas.
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E reforçamos: uma alimentação equilibrada, variada e baseada em comida de verdade continua sendo o caminho mais seguro.







