Creatina pode auxiliar no tratamento da depressão, segundo revisão de estudos

Estudo sugere melhora de sintomas depressivos em alguns cenários, especialmente quando associada a antidepressivos, mas sem evidência conclusiva

Paola Bem-estar

02/07/2026

A creatina monohidratada é um dos suplementos mais estudados na área de desempenho físico, com papel bem estabelecido no metabolismo energético muscular. Nos últimos anos, porém, sua investigação foi ampliada para outros sistemas do organismo, incluindo o cérebro.

Uma revisão recente de ensaios clínicos analisou o uso da creatina em pessoas com transtorno depressivo maior e encontrou um cenário de interesse crescente, mas ainda sem consenso. Em alguns estudos, houve melhora de sintomas quando a substância foi utilizada como complemento ao tratamento convencional. Em outros, não foram observadas diferenças relevantes em relação ao placebo.

Esse conjunto de dados posiciona a creatina não como uma intervenção estabelecida, mas como uma hipótese em investigação dentro da psiquiatria nutricional.

Creatina e metabolismo cerebral

A creatina participa diretamente do sistema de regeneração de ATP, a principal molécula de energia celular. No cérebro, esse mecanismo é particularmente relevante porque neurônios dependem de alta disponibilidade energética para manter suas funções.

A hipótese investigada pelos pesquisadores é que, em alguns quadros depressivos, pode haver alteração no metabolismo energético cerebral e disfunção mitocondrial. Nesse contexto, a creatina poderia atuar como um “reservatório energético”, ajudando a estabilizar o funcionamento celular.

Além disso, há discussões na literatura sobre possíveis interações indiretas com sistemas neuroquímicos envolvidos na regulação do humor, como serotonina e dopamina, embora esses mecanismos ainda não estejam completamente estabelecidos em humanos.

O que mostram os estudos clínicos

A revisão analisou cinco ensaios clínicos randomizados, com um total de 238 participantes, dos quais 126 receberam creatina e 112 receberam placebo. As doses variaram entre 2 g e 10 g por dia, com duração média de 4 a 8 semanas.

Os estudos foram heterogêneos em desenho, população e intervenções associadas. Em alguns casos, a creatina foi adicionada a antidepressivos; em outros, combinada com psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental.

Os resultados também foram inconsistentes. Parte dos estudos observou melhora mais significativa dos sintomas depressivos no grupo que utilizou creatina, especialmente quando associada a antidepressivos. Em contraste, outros ensaios não encontraram diferença relevante entre grupos.

Essa variabilidade impede qualquer conclusão definitiva sobre eficácia clínica neste momento.

Evidência ainda inconsistente, mas biologicamente plausível

O conjunto de dados sugere um padrão importante: a creatina pode ter potencial em determinados subgrupos ou contextos clínicos, mas não apresenta efeito consistente quando analisada de forma ampla.

Em um dos estudos, por exemplo, mulheres com depressão maior que utilizaram creatina junto a um antidepressivo apresentaram maior taxa de remissão após oito semanas. Já em populações com depressão resistente ou em adolescentes, os resultados foram neutros.

Essa divergência pode estar relacionada a diferenças hormonais, metabólicas, de gravidade do quadro ou até ao tipo de intervenção associada.

Ainda assim, os autores reforçam que o tamanho reduzido das amostras e a curta duração dos estudos limitam a força das conclusões.

Segurança e uso clínico

Do ponto de vista de segurança, a creatina apresenta bom perfil de tolerabilidade quando utilizada em doses usuais. Os efeitos adversos relatados nos estudos foram leves e, em geral, gastrointestinais.

No entanto, há pontos importantes de cautela. Em pessoas com transtorno bipolar, por exemplo, foram relatados casos de hipomania em associação ao uso da substância. Isso reforça a necessidade de avaliação clínica antes de qualquer recomendação.

Além disso, especialistas destacam que não há evidência para uso isolado da creatina no tratamento da depressão. O potencial observado até aqui é exclusivamente como adjuvante, ou seja, complemento a terapias já estabelecidas.

Depressão não é uma condição homogênea

Um dos pontos reforçados pelos pesquisadores é que a depressão não é um quadro único, mas um conjunto heterogêneo de condições com diferentes causas biológicas, psicológicas e ambientais.

Isso ajuda a explicar por que intervenções que funcionam em alguns estudos não apresentam o mesmo efeito em outros.

Dentro desse cenário, a creatina pode ser relevante apenas para parte dos indivíduos, dependendo de fatores como metabolismo energético, resposta inflamatória, estado nutricional e tipo de tratamento concomitante.

Conclusão

A evidência atual sugere que a creatina pode ter um papel potencial como terapia adjuvante no transtorno depressivo maior, especialmente quando associada a tratamentos convencionais.

No entanto, os resultados ainda são inconsistentes, baseados em amostras pequenas e com diferenças importantes entre os estudos. Isso impede qualquer recomendação clínica ampla neste momento.

O que existe, até aqui, é uma linha de investigação promissora dentro da interface entre metabolismo energético e saúde mental — mas ainda distante de aplicação consolidada.

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Jeryous FB, Zhou C, Fabiano N, Wong S, Licinio J. Creatine as a treatment for depression. Brain Medicine. 2026;1–2. doi:10.61373/bm026l.0039. Epub 30 Jun 2026.

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