Mounjaro e Ozempic podem aumentar a fertilidade? O que dizem os estudos mais recentes

Medicamentos usados no tratamento da obesidade mostram efeitos promissores sobre a fertilidade tanto em mulheres quanto em homens — e a ciência começa a entender o porquê

Paola Doutora

18/06/2026

A relação entre excesso de peso e fertilidade já é bem conhecida pela medicina. O que mudou nos últimos anos foi o surgimento de tratamentos capazes de atuar diretamente nas causas metabólicas da obesidade.

Com o avanço dos medicamentos da classe GLP-1, como a semaglutida, pesquisadores passaram a observar benefícios que vão além do emagrecimento. Estudos recentes sugerem que esses fármacos podem favorecer a saúde reprodutiva de mulheres e homens.

Os resultados ainda são preliminares, mas levantam uma questão importante: tratar a obesidade pode ajudar a restaurar a fertilidade?

Como o excesso de peso afeta a fertilidade

O tecido adiposo não funciona apenas como reserva de energia. Em excesso, ele interfere diretamente na produção e no equilíbrio dos hormônios.

Nas mulheres, o aumento da gordura corporal pode elevar os níveis de estrogênio, desregular o ciclo menstrual e prejudicar a ovulação. Além disso, pode comprometer a qualidade dos óvulos e dificultar a implantação do embrião, aumentando o risco de aborto espontâneo.

Nos homens, a obesidade costuma estar associada à redução da testosterona e à piora da qualidade do esperma. Grande parte desses efeitos está relacionada à resistência à insulina e ao estado inflamatório crônico provocado pelo excesso de peso.

A PMOS — síndrome metabólica ovariana policística, anteriormente conhecida como SOP — ilustra bem essa relação. Considerada uma das principais causas de infertilidade feminina, ela está diretamente ligada a alterações metabólicas e hormonais.

Semaglutida e fertilidade feminina: o que os estudos mostram

Pesquisadores da Universidade do Colorado analisaram participantes do estudo clínico RESTORE, que investiga se a semaglutida ou a metformina podem restaurar a ovulação em mulheres com PMOS e obesidade.

Resultados preliminares publicados na revista Fertility and Sterility mostraram que participantes que perderam pelo menos 10% do peso corporal com semaglutida apresentaram melhora em marcadores reprodutivos antes mesmo do esperado.

A principal hipótese é que a combinação entre perda de peso e melhora da sensibilidade à insulina contribua para restaurar o equilíbrio hormonal e favorecer o retorno da ovulação.

Em mulheres com PMOS, esses fatores costumam caminhar juntos. Por isso, tratar apenas um aspecto do problema raramente é suficiente.

Os pesquisadores destacam, porém, que o estudo ainda está em andamento. Resultados mais consistentes dependerão de um número maior de participantes e de um acompanhamento mais prolongado.

E nos homens?

Uma revisão de cinco ensaios clínicos randomizados, apresentada no congresso ENDO 2026, avaliou o impacto dos medicamentos GLP-1 — incluindo semaglutida e liraglutida — sobre a saúde reprodutiva masculina.

Os resultados foram animadores.

Os estudos não identificaram efeitos negativos sobre testosterona, hormônios reprodutivos ou qualidade do esperma. Em alguns casos, houve melhora desses parâmetros.

Em um estudo de 24 semanas com semaglutida, observou-se melhora na morfologia dos espermatozoides, sem alterações prejudiciais nos hormônios reprodutivos. Já outro estudo, com 16 semanas de uso de liraglutida, registrou aumento dos níveis de testosterona em homens com obesidade.

Esse achado chama atenção porque a terapia de reposição hormonal costuma elevar a testosterona ao mesmo tempo em que reduz a produção de espermatozoides. Os medicamentos GLP-1, por outro lado, parecem melhorar os níveis hormonais sem comprometer a fertilidade.

Para homens que desejam ter filhos, essa diferença pode ser relevante.

Por que os GLP-1 podem influenciar a fertilidade?

O mecanismo ainda não está totalmente esclarecido.

A hipótese mais aceita atualmente é que os benefícios reprodutivos sejam consequência das melhorias metabólicas promovidas pelo tratamento. A perda de peso, a redução da inflamação e o aumento da sensibilidade à insulina exercem impacto direto sobre a função hormonal.

Em muitos casos, tanto nas mulheres com PMOS quanto nos homens com baixa testosterona associada à obesidade, a origem do problema está no metabolismo.

Quando essa disfunção é tratada, o sistema hormonal tende a se reorganizar.

Também existe a possibilidade de que os medicamentos GLP-1 atuem diretamente em tecidos reprodutivos, mas ainda não há evidências suficientes para confirmar essa hipótese.

O que ainda falta saber

Apesar dos resultados promissores, nenhum medicamento GLP-1 é atualmente aprovado para o tratamento da infertilidade.

Algumas perguntas importantes ainda precisam ser respondidas:

  • Esses benefícios aumentam as taxas de gravidez?
  • Os efeitos são mantidos no longo prazo?
  • Quanto da melhora está relacionada à perda de peso e quanto decorre de uma ação direta do medicamento?

Estudos maiores e com foco específico em desfechos reprodutivos serão necessários para esclarecer essas questões.

Conclusão

Os medicamentos GLP-1 já demonstraram benefícios importantes para o controle do peso e da saúde metabólica. Agora, as evidências começam a indicar que esses efeitos podem se estender também à saúde reprodutiva.

Isso não significa que a semaglutida passará a ser utilizada como tratamento de fertilidade no curto prazo. Mas reforça uma mensagem importante: tratar a obesidade de forma adequada produz benefícios que vão muito além da balança.

A fertilidade pode ser mais um deles — e os próximos estudos ajudarão a entender até onde esse impacto pode chegar.

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Fertility and Sterility,
2026,

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