Treinar no frio realmente faz gastar mais calorias?

Entenda o que acontece no corpo durante os treinos em temperaturas baixas — e por que o frio, sozinho, não é o segredo do emagrecimento

Paola Doutora

11/05/2026

Com a chegada das temperaturas mais baixas, muita gente começa a ouvir a mesma ideia nas redes sociais e nas academias: “No frio, o corpo gasta mais calorias”. Mas até que ponto isso é verdade?

A resposta curta é: sim, o organismo realmente aumenta o gasto energético em ambientes frios. No entanto, isso não significa que o inverno seja uma espécie de “atalho” para o emagrecimento. Como quase tudo quando falamos de composição corporal e metabolismo, o cenário é mais complexo — e mais interessante — do que parece.

Entender como o corpo reage ao frio ajuda não apenas a interpretar melhor essas promessas, mas também a enxergar como fatores ambientais influenciam nossa saúde, desempenho físico e gasto calórico diário.

O corpo realmente gasta mais energia no frio

O organismo humano trabalha constantemente para manter a temperatura corporal estável. Quando o ambiente esfria, ele precisa produzir mais calor para preservar funções vitais. E produzir calor exige energia.

Esse processo é chamado de termogênese.

Um estudo publicado no PubMed observou que a exposição leve ao frio aumentou o gasto energético acima da taxa metabólica de repouso, justamente porque o corpo precisou ativar mecanismos de produção de calor. O aumento, porém, foi considerado modesto pelos próprios pesquisadores.

Na prática, isso significa que sim: o frio pode elevar o gasto calórico. Mas estamos falando de um aumento relativamente pequeno, não de algo capaz de transformar sozinho o processo de emagrecimento.

É justamente aí que muitas interpretações nas redes sociais acabam exagerando.

O papel da gordura marrom

Uma das explicações mais interessantes para esse aumento do gasto energético envolve a chamada gordura marrom.

Diferente da gordura branca — associada ao armazenamento de energia — a gordura marrom possui uma função mais metabólica: ela ajuda a gerar calor. Quando somos expostos ao frio, esse tecido pode ser ativado para aumentar a produção térmica do organismo.

Pesquisas do NIH (National Institutes of Health) mostram que a exposição ao frio estimula mecanismos ligados à termogênese e à ativação da gordura marrom, aumentando o consumo energético do corpo.

Isso não quer dizer que o frio “derreta gordura”, mas sim que existe um esforço metabólico adicional para manter a temperatura corporal.

Treinar no frio muda o desempenho?

Em alguns casos, sim.

Temperaturas mais baixas podem reduzir a sensação de superaquecimento durante exercícios aeróbicos, especialmente em atividades prolongadas como corrida, caminhada ou ciclismo. Algumas pessoas se sentem menos cansadas e conseguem sustentar o esforço por mais tempo.

Além disso, estudos também observaram mudanças na utilização de gordura como fonte energética durante exercícios realizados em ambientes frios.

Mas existe outro lado importante dessa história.

O inverno costuma reduzir o nível geral de movimentação diária. Muitas pessoas caminham menos, ficam mais tempo sentadas e têm mais dificuldade para manter consistência nos treinos. Ou seja: aquele pequeno aumento metabólico causado pelo frio pode ser facilmente compensado por uma redução no gasto calórico total do dia.

O frio emagrece? Não exatamente

Essa talvez seja a parte mais importante da conversa.

O emagrecimento continua dependendo principalmente de fatores como:

  • Consistência nos exercícios
  • Alimentação adequada
  • Sono e recuperação
  • Nível geral de atividade física

O frio pode aumentar um pouco o gasto energético, mas isso não substitui hábitos sustentáveis.

Inclusive, existe um detalhe curioso: temperaturas mais baixas também podem aumentar a fome em algumas pessoas. Isso acontece porque o corpo entende o frio como um cenário que demanda mais energia. Dependendo das escolhas alimentares e da rotina, o consumo calórico pode acabar aumentando mais do que o próprio gasto.

Por isso, olhar apenas para a ideia de “gastar mais calorias no frio” simplifica demais um processo que envolve comportamento, metabolismo, ambiente e estilo de vida.

Musculação no frio exige mais atenção

Quem treina musculação costuma perceber que o corpo demora mais para “responder” em dias frios. Isso acontece porque temperaturas baixas podem deixar músculos e articulações mais rígidos no início do treino.

Por isso, o aquecimento se torna ainda mais importante.

Algumas estratégias simples ajudam bastante:

  • Aumentar gradualmente a carga
  • Fazer séries leves antes do exercício principal
  • Priorizar mobilidade articular
  • Evitar começar o treino de forma explosiva

Esses cuidados podem melhorar desempenho e conforto, além de reduzir o risco de lesões.

Mais importante do que o frio é a regularidade

Existe um fascínio natural por estratégias que parecem acelerar o emagrecimento. Mas, na prática, os maiores resultados continuam vindo da repetição de hábitos consistentes ao longo do tempo.

Se o frio ajuda um pouco no gasto energético? Sim.

Mas o verdadeiro impacto para saúde metabólica e composição corporal ainda está na combinação entre exercício físico regular, alimentação equilibrada, sono adequado e manutenção da massa muscular.

E talvez esse seja o ponto mais importante: encontrar uma rotina que você consiga sustentar mesmo nos dias frios. Porque é justamente nessa época que muita gente interrompe o movimento — e não quando o corpo deixa de gastar calorias.

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Blondin, D. P., Frisch, F., & Haman, F. (2020). Shivering and non-shivering thermogenesis in humans: Metabolic and hormonal responses to cold exposure. Disponível em: PubMed

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National Institutes of Health (NIH). Shivering triggers brown fat to produce heat and burn calories. Disponível em: NIH Research Matters

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