GLP-1 no Super Bowl: o que realmente está em jogo na conversa sobre saúde
Com mais de 127 milhões de pessoas assistindo ao Super Bowl em 2025 e uma arrecadação publicitária que ultrapassou US$ 650 milhões no ano anterior, o evento se consolidou como um dos maiores palcos de influência cultural do mundo. No entanto, ao extrapolar o esporte e o entretenimento, o Super Bowl também passou a funcionar como um espaço de disputa narrativa — inclusive sobre saúde.
Quando medicamentos da classe dos GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, ocupam esse espaço, o debate deixa de ser apenas clínico. Ele se torna cultural. O que está em jogo não é só a eficácia do tratamento, mas a forma como a sociedade passa a entender obesidade, cuidado e responsabilidade individual.
Quando o tratamento vira mensagem
Os GLP-1 representam um avanço real no manejo da obesidade e das doenças metabólicas. Eles atuam sobre mecanismos biológicos complexos, regulam o apetite, melhoram o controle glicêmico e reduzem o food noise, um fator frequentemente ignorado nas abordagens tradicionais. Não reconhecer isso seria desonesto.
Ainda assim, reconhecer o avanço não significa ignorar o contexto. Quando esses medicamentos entram no horário nobre, embalados por campanhas publicitárias e figuras de alto prestígio simbólico, a mensagem transmitida deixa de ser apenas médica. Ela passa a sugerir o que é aceitável, desejável e até esperado em relação ao corpo.
O peso simbólico da imagem
A escolha de Serena Williams como rosto de uma dessas campanhas não é irrelevante. Trata-se de uma das maiores atletas da história, referência de força, disciplina e performance. Ao associar sua imagem ao uso de medicamentos para perda de peso, o discurso implícito se torna mais complexo do que parece.
A mensagem pode ser lida como uma tentativa de reduzir estigmas, mas também pode reforçar a ideia de que nem mesmo corpos considerados fortes ou exemplares seriam suficientes sem intervenção farmacológica. Quando isso acontece, o risco é substituir um estigma antigo por uma nova pressão, agora legitimada por um verniz médico.
Benefício não elimina responsabilidade
Os dados mostram que os GLP-1 contribuem para a redução das taxas de obesidade, algo inédito após décadas de crescimento contínuo. Esse dado é relevante e precisa ser reconhecido. Ao mesmo tempo, ele não autoriza a simplificação do tratamento.
Obesidade é uma condição crônica, multifatorial e complexa. Reduzi-la a uma solução farmacológica, ainda que eficaz, é repetir erros históricos: buscar respostas rápidas para problemas que exigem acompanhamento contínuo. Medicamentos não operam no vazio. Eles precisam de contexto clínico, indicação precisa e monitoramento médico constante.
O que a publicidade escolhe não mostrar
Anúncios raramente falam sobre efeitos colaterais, riscos, tempo de uso ou critérios de suspensão. Também não enfatizam que a prescrição de GLP-1 deve ser feita por médicos, após avaliação individual, nem que o tratamento exige acompanhamento ao longo do tempo.
Essa ausência de informação não é acidental. Ela favorece uma narrativa de facilidade, justamente o oposto do que o cuidado em saúde exige. Quando o tratamento é apresentado como simples, o fracasso posterior tende a ser atribuído ao indivíduo — e não à comunicação distorcida que o precedeu.
Tratamento não é evento, é processo
Mesmo quando o uso do medicamento é indicado, ele não encerra o cuidado. Pelo contrário, ele o inaugura. A manutenção do peso, a preservação da massa muscular e a melhora dos marcadores metabólicos dependem de uma estrutura que vai além da prescrição.
Nesse processo, o acompanhamento médico contínuo é indispensável. Da mesma forma, o trabalho do profissional de educação física é parte central do tratamento, não um complemento opcional. É por meio do exercício orientado que se constrói sustentabilidade, autonomia e proteção contra a perda de massa muscular — um risco real quando o emagrecimento é rápido.
Sem essa rede de cuidado, o medicamento vira promessa isolada. E promessas isoladas costumam falhar.
Falar mais não é falar melhor
A presença dos GLP-1 no Super Bowl pode ampliar o debate sobre obesidade, mas visibilidade não substitui responsabilidade. O problema não está nos medicamentos nem na ciência por trás deles. Está na forma como são comunicados e no silêncio em torno do que realmente sustenta um tratamento eficaz.
Saúde não se resolve em anúncios de 30 segundos. E cuidado não se constrói sem profissionais, acompanhamento e tempo.
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FAQ
- Os medicamentos GLP-1 são indicados para qualquer pessoa que queira emagrecer?Não. Eles são indicados para pessoas com obesidade ou condições de saúde específicas, como diabetes tipo 2, sempre com acompanhamento médico e dentro de um contexto de mudanças de hábitos.
- Quais os riscos do uso indiscriminado desses medicamentos?O uso sem orientação pode causar efeitos colaterais como náuseas, vômitos, desconforto gastrointestinal e outros problemas mais sérios. Por isso, acompanhamento médico é essencial.
- É possível emagrecer de forma sustentável sem medicamentos?Sim. Estratégias que envolvem alimentação equilibrada, atividade física e suporte psicológico são comprovadamente eficazes e saudáveis para a maioria das pessoas.
- Medicamentos são substitutos de alimentação e atividade física?Não. Eles são, em alguns casos, um suporte dentro de um tratamento mais amplo, mas não substituem a importância de bons hábitos para a saúde em geral.







